A tarde está nublada, o novo CD do Nick Cave & The Bad Seeds rolando enquanto o frio lá fora faz com que eu me lembre de mais um dia sem encarar o velho chuveiro elétrico. Não que eu seja um daqueles que estão saltitantes para contribuir com esse lance de racionamento, nada disso, é que realmente é uma provação ter que molhar os testículos num dia frio como este. Bom, caro leitor, se sua casa contar com o bendito aquecimento central e coisas do gênero, parabéns, você é aquilo que chamam de "pessoas de posse". Ah, estou reclamando por nada, mas o lance é reclamar - muito em breve alguém virá me criticar, "você só reclama e não faz nada, blá, blá, blá...", mas foda-se, não é mesmo?! Reclamar já é um bom começo. Aliás, eu até que faço alguma coisa - escrevo.
Antigamente, lá nos tempos dos Voltaires, os pensadores não faziam porra nenhuma o dia inteiro, matavam o tempo masturbando idéias e comendo solteironas burguesas. Isso é pra quem pode. Mas você, leitor amigo, você sabe que a tal globalização filadaputa está aí e ai de quem não souber falar dez línguas diferentes.
É engraçado ver os jovens naqueles programas emitivídicos debatendo os problemas do país e coisas do gênero. Todos parecem estar interessados em ser o Kashmir do novo milênio, salvar o planeta ou então simplesmente demonstrar algum repúdio ao santo McBombald´s. Como se eles conseguissem enfiar toda a madeira da Amazônia no cu para protegê-la do interesse estrangeiro.
Outro dia eu fui surpreendido por uma garota toda barbie girl (notaram que lançaram a Barbie Fada?) - ela estava numa daquelas livrarias de shopping center (onde geralmente não se encontra nada interessante) segurando "A Metamorfose", do mestre Franz. E daí? Bom, minhas tripas deram nó quando ela, com aquela voz de cosméticos e bunda retraída, disse para suas amigas igualmente cheirosinhas: "Não entendi nada desse livro, mas a capa é muito louca."
Ah, a filosofia de Caras é muito para mim. Mas é verdade, ao lerem meus textos e afins, muitas pessoas podem pensar que sou um ser rabugento que não gosta de jogar futebol. Não é bem assim. Realmente não gosto de futebol.
Quanto ao fato de ser rabugento ou não, talvez eu esteja apenas vivendo além do meu tempo ou então ando me alimentando inadequadamente e dormindo pouco. E você? Você que é fã das baladas e acha cool ter influências que lhe rendam lugares privilegiados no carnaval lá na Bahia, acha que está por cima de nós? Nós. Sim, eu e mais meia-dúzia de seres atormentados que ainda acham que nem tudo está perdido. O meu estilo causa repulsa, eu sei, porém quem não compreende minhas palavras certamente não compreende a razão de ser dos ornitorrincos.
E você achou que eu fosse realmente filosofar sobre tal coisa? Para compreenderem meu raciocínio, os interessados deverão ler, antes de mais nada, muitas revistinhas do Conan e, mais tarde, encarar o velho Nietzsche e os nibelungos de Wagner. Bom, nem penso em adotar uma filosofia bigoduda, mas é cool dizer que lê Nietzsche, não é? Vocês notaram como eu sou mainstream? Até curto Woody Allen. Pois é, essa é a questão que ninguém compreende.
Isso faz com que eu me lembre das velhas e boas aulas de redação do colegial. Naquele tempo eu ficava lendo uns lances sobre parapsicologia e depois não dormia direito à noite. Mas também não consegui entortar uma agulha sequer.